100 bilhões de dólares, isso é o Facebook


A rede social que devora tudo à sua volta atrai tanto investimento que pode valer 100 bilhões de dólares

A atração gravitacional exercida pelo Facebook no universo da internet cresce exponencialmente. Antes que você acabe de ler esta frase, cerca de quarenta pessoas terão se rendido aos apelos do Facebook e aderido à rede social fundada em um quarto no dormitório de estudantes da Universidade Harvard em 2004, nos Estados Unidos. A cada minuto, o Facebook recebe 451 novos adeptos. Hoje já são 845 milhões de usuários, em todos os continentes (na China, o governo bloqueou o site). Em agosto, será 1 bilhão de assinantes – ou uma em cada sete pessoas da população mundial. Nos Estados Unidos e na Índia, mais de 80% das pessoas que utilizam a internet têm uma conta ativa no Facebook. No Brasil, o site triplicou de tamanho no último ano e acaba de subir ao posto de rede de relacionamentos mais popular, superando o Orkut. A cada 100 brasileiros conectados à internet, 75 estão no Facebook e seguem uma tendência mundial. Mais da metade deles navega pelo site todos os dias, em uma teia de relacionamento de 100 bilhões de amizades, um número próximo ao de neurônios do cérebro humano.

Muito em breve, todas essas conexões – e as perspectivas de negócios que elas oferecem, com a venda de anúncios dirigidos, mercadorias, aplicativos e jogos deverão se transformar em uma das empresas mais valiosas do mundo. De acordo com os planos apresentados na semana passada, o Facebook prepara-se para fazer a sua oferta inicial de ações (initial public offering, ou IPO, em inglês). Quando os papéis da empresa estrearem na bolsa de valores, o que deverá ocorrer em maio, estima-se que o seu valor total supere 75 bilhões de dólares, podendo chegar a 100 bilhões, o que estabeleceria um recorde para uma empresa novata. O Google, quando vendeu pela primeira vez suas ações, em 2004, foi avaliado em 23 bilhões de dólares. Com apenas oito anos de vida, completados neste sábado, 4, o Facebook poderá galgar uma cotação que equivale ao dobro da centenária Ford, é similar à da Amazon e corresponde à metade do valor anual do Google.

Parte dos especialistas de Wall Street acredita que as estimativas de valor são exageradas. O Facebook lucrou 1 bilhão de dólares no ano passado – os 100 bilhões calculados representariam 100 vezes o lucro, quando a média das empresas negociadas em bolsa é de doze vezes o lucro. Mas o entusiasmo, autorizado pela expansão global da internet e dos smartphones, pode, sim, levar o valor à altura agora imaginada. O Facebook mal deixou a infância, subtraiu a adolescência e foi direto para a vida adulta. “Para mim, o IPO do Facebook é mais um passo na evolução da empresa, e não o objetivo final, que é deixar o mundo mais aberto e conectado”, afirmou com exclusividade a VEJA, por e-mail, Eduardo Saverin, o paulistano que foi um dos fundadores do site, ao lado do americano Mark Zuckerberg, quando ambos estudavam na Universidade Harvard. “Considerando que o Facebook surgiu em 2004, o trabalho está apenas começando”. Prestes a completar 30 anos, o brasileiro não trabalha mais na empresa, vive em Singapura, onde investe em novos negócios de tecnologia, mas será um dos bilionários criados pela abertura de capital. Sua participação acionária poderá garantir-lhe uma fortuna estimada em 5 bilhões de dólares, somando-se as ações que ele vendeu recentemente e as que ainda mantém. Com a efetivação do negócio, Zuckerberg, que detém 28,2% da empresa, terá uma fortuna pessoal de 28,2 bilhões de dólares, caso o valor do Facebook chegue de fato aos 100 bilhões de dólares. Seria assim o nono homem mais rico do mundo, logo abaixo de Eike Batista.

Zuckerberg, aos 27 anos, entra definitivamente para um seleto grupo de inovadores que ajudaram a construir o tempo do computador pessoal, da internet, da conectividade como negócio e diversão. Com a morte de Steve Jobs, ele começa a assumir o posto – em uma versão genuinamente nerd e um tanto sem sal – antes ocupado pelo criador do Mac, do iPod, do iPhone e do iPad. Zuckerberg manterá mais da metade das ações com direito a voto, assegurando assim que a estratégia da empresa siga sob seu domínio. “Estamos acostumados a falar do impacto que tiveram no passado invenções como a imprensa e a televisão. Agora, nossa sociedade atingiu um novo ponto de inflexão”, disse Zuckerberg na cana divulgada aos possíveis novos investidores na empresa. “Existe uma grande oportunidade no desejo de conectar todas as pessoas do planeta, dar voz a cada uma delas e contribuir para transformar a sociedade no futuro”.

O Facebook não foi a primeira rede social, mas provou-se a mais atraente, com um maior número de recursos e possibilidades de interação, que facilitam a troca de imagens e vídeos em tempo real, mesmo sendo acessada por um telefone celular. Deixou assim para trás competidores que chegaram a ser líderes em alguns países, como o MySpace e o Orkut. Para o professor Stephen Diamond, da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, estudioso do impacto social e político das novas tecnologias, o IPO do Facebook é um momento comparável ao da abertura de capital do Netscape, em 1995. “O Netscape mudou a forma como pensamos tecnologia porque criou o primeiro navegador comercial da internet. Foi o momento da virada para o setor tecnológico, representando a mudança do hardware para o software e para outros serviços on-line”, diz Diamond. “Agora temos a abertura de capital de uma empresa que criou um novo ambiente para os negócios no setor”.

Quanto mais pessoas passam a se relacionar pelo Facebook – trocando mensagens e opiniões, lendo notícias, clicando no ícone “Curtir”, publicando fotos ou simplesmente bisbilhotando a vida alheia –, mais difícil é ficar de fora dessa rede. É por ela que os colegas de classe combinam as baladas do fim de semana, paqueram e indicam músicas aos amigos. É com ela que os avós acompanham o crescimento dos netos mesmo a distância, não raro em outros países. O Facebook serviu também no ano passado de plataforma para a convocação das massas rebeldes na Primavera Árabe, e para incitar o massacre de torcedores de futebol de um time adversário no Egito, na última semana. Para algumas empresas, observar o perfil em redes sociais de um pretendente a uma vaga de trabalho é mais crucial do que a própria análise do currículo. Fazer parte dessa rede, especialmente para os mais jovens, é tão obrigatório quanto ter um telefone celular. Uma experiência clássica, feita nos anos 60, comprovou estimativas de que um indivíduo está distante de qualquer outra pessoa do planeta, em média, por apenas 6 graus. Dentro do universo fechado do Facebook, essa distância é ainda menor (4,7 graus de separação, em média) e tem se reduzido à medida que mais pessoas ingressam na rede.

Faz sentido que o Face, como é carinhosamente chamado por quem o frequenta, continue crescendo. Há anos os especialistas dizem que, para uma rede social ser realmente bem-sucedida, ela precisaria engolir o mundo. Se dois amigos fizessem parte exclusivamente de redes diferentes, seria como se eles tivessem telefones de operadoras concorrentes que, hipoteticamente, não conseguissem estabelecer comunicação – ou seja, por meio dos quais não se poderia conversar. Apenas não se sabia, até recentemente, qual seria o site que predominaria. Agora ficou claro. É o Facebook – pelo menos até que não surja um novo e revolucionário rival. Para os seus usuários, ele não é apenas uma extensa e crescente rede de relacionamentos. O site contribui para organizar as informações e seus relacionamentos. A internet, quando não é submetida a uma força amalgamadora, tende à entropia absoluta, com os bilhões e bilhões de bits produzidos, transferidos e armazenados a cada instante expandindo-se de maneira desordenada. No início, reinou o caos. Usar a internet era essencialmente entrar em diferentes sites ou enviar e-mail a variadas pessoas, sem estabelecer nenhum tipo de relação – ou sinapse. Então surgiram os grandes portais de informação e os primeiros mecanismos de busca, num período em que despontou o Yahoo!. A capacidade de interferência dos usuários era restrita. Um novo salto veio com o Google, que, graças à sua capacidade extraordinária de hierarquizar informações, deu a sensação de que poderíamos encontrar qualquer coisa no palheiro infindável da internet.

Mas a quantidade de informações produzidas, seja nos vastos galpões de servidores superpoderosos, seja nos tablets e celulares, continua crescendo exponencialmente. A cada segundo, 2,8 milhões de e-mails são enviados no mundo, 1 600 comentários são feitos pelo Twitter, 110 fotos são arquivadas no Flickr, dez vídeos são postados no YouTube, um novo blog é criado e mais um domínio www é registrado. A quantidade de informações digitais acumulada no mundo até hoje é de 1,8 zettabyte (ou 1,8 trilhão de gigabytes), o equivalente a 385 bilhões de DVDs. Por isso ganham proeminência, agora, as empresas que têm conseguido dar ordem à cacofonia da rede. A Apple é uma delas, com a sua loja digital de músicas e aplicativos. Quem possui um iPhone ou um iPad usa menos o Google e navega pela internet utilizando aplicativos escolhidos e configurados de acordo com suas preferências. A Amazon, com a venda de livros e todo tipo de produto, também tem sido bem-sucedida em criar um naco restrito dentro da internet. O sucesso da Apple pode ser medido pela alta de mais de 400% no preço de suas ações nos últimos cinco anos. Ela é atualmente a empresa mais valiosa do mundo, com suas ações cotadas em 430 bilhões de dólares. Nesse mesmo período, as ações da Amazon tiveram alta de 370% (a companhia vale hoje 85 bilhões de dólares). O Google obteve bons resultados em seus primeiros anos e logo se transformou em uma das empresas mais admiradas do setor de tecnologia (seu valor atual é de 194 bilhões de dólares). Mas atualmente passa por uma crise de estratégia para seguir crescendo – e suas ações pouco ganharam valor nos últimos cinco anos.

O Facebook, como uma internet dentro da internet, tem um raro poder de organização. Para os anunciantes e possíveis investidores, seu valor está sobretudo nas informações que os usuários proveem ao site sobre seus interesses, hábitos de compra e leitura e gostos musicais. Cada bit de informação publicado na rede social é processado por algoritmos matemáticos. A classificação é alavancada por uma das sacadas mais geniais de Zuckerberg: o ícone “curtir” (like, no original, em inglês). Cada “curtida” no Facebook (uma notícia, um anúncio, o trailer de um filme, um novo clip) transforma-se em uma informação valiosa, que é vendida para anunciantes. O site oferece, além de toda a sua teia de relações, a bala mágica para o anunciante: é capaz de dizer, por meio da análise dos dedinhos apontados para cima (“curti!”), quem gosta do que e como. Os ícones “curtir” ou “recomendar” são acionados 1,9 milhão de vezes a cada minuto. Trata-se de um ativo inigualável – nenhuma outra empresa possui tanta riqueza de detalhes sobre seus usuários. “Quanto mais usuários a empresa tiver, maior será sua capacidade de atrair anunciantes e, consequentemente, de gerar receita”, explica Alex Banks, diretor para o Brasil da consultoria americana comScore. No ano passado, a empresa superou pela primeira vez o Yahoo! no mercado americano de propaganda para sites (que exclui aquela relacionada com buscas, na qual o Google ainda lidera) e abocanhou 16,3% de toda a receita gasta nesse tipo de anúncio comercial. Quatro anos antes, a fatia havia sido de apenas 2,1%. “O Facebook conseguiu aperfeiçoar a forma de obter receita na internet, por meio de rede social”, resume Roberto Grosman, diretor da agência F.biz, especializada em publicidade digital. Trata-se de uma terceira onda na forma como se ganha dinheiro na internet.

Apenas três em cada dez empresas geridas no Vale do Silício (para onde o Facebook se mudou, depois de seu pontapé inicial em Harvard) sobrevivem depois de uma década. A rede certamente superará essa barreira, mas a partir de agora passará pelo escrutínio dos investidores e dos analistas de Wall Street. Como empresa de capital aberto, precisará apresentar resultados a cada trimestre – e, se os números decepcionarem, suas ações fatalmente cairão. O valor de mercado de uma companhia depende diretamente da projeção que se faz para o seu retorno financeiro futuro. Para alguns analistas, a rede de Zuckerberg terá de provar ser de fato capaz de propiciar os lucros que justifiquem um valor de mercado de até 100 bilhões de dólares. Mesmo que não chegue lá, ainda assim o Facebook terá cumprido sua missão.

Eduardo Saverin, agora com o olhar de quem vê o fenômeno de uma distância regulamentar, tem a chave do significado desta era na qual vivemos, a do apogeu das redes sociais, nascida num quarto de república universitária. “O Facebook foi a centelha que ajudou a dar início a um ecossistema de startups. Ele contribuiu para impulsionar as pessoas para o centro das inovações e dos avanços tecnológicos”, diz. “É possível esperar soluções criativas, desde que baseadas no conceito de redes que unem pessoas, como a do Facebook, em todos os campos que pudermos imaginar: no comércio eletrônico, na educação, na saúde, na busca pela eficiência energética”. E, de quebra, ao alimentar tanta inteligência, o Facebook produziu centenas de milionários que acreditaram na ideia lá atrás, num dos mais fascinantes benefícios do capitalismo empreendedor.

Com reportagem de Alessandra Medina, Ana Luiza Daltro e Érico Oyama



À prova de hackers?

Quando criou o Facebook, Mark Zuckerberg declarou: “A diferença entre nós e todos os outros é que nunca caímos”. Sair do ar é motivo para os usuários migrarem para a concorrência. Desde o mês passado, a promessa de Zuckerberg tem passado por sua maior prova. Há duas semanas, hackers ligados ao Anonymous, grupo de criminosos do mundo virtual, anunciaram que derrubariam o Facebook. A ação faria parte de um ataque em massa que teve início em janeiro. O Anonymous alega protestar contra propostas de leis antipirataria, como a americana Sopa (Lei para Parar a Pirataria On-Line, na sigla em inglês), e o fechamento de sites de compartilhamento de arquivos, como o Mega-upload. Já foram afetadas páginas como a do FBI, a polícia federal americana, e a do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Na semana passada, os criminosos agiram no Brasil e derrubaram o site de ao menos um banco brasileiro por dia. Até sexta-feira 3, oito foram afetados, inclusive os do Banco do Brasil e Banco Central. A justificativa da ofensiva brasileira não é clara: seria uma continuação das ações internacionais ou um protesto contra a corrupção. Mas o que se destaca em meio a todos esses ataques é um sobrevivente: o Facebook.

O engenheiro Chester Wisniewski, consultor da Sophos, empresa inglesa especialista em segurança digital que participa das investigações para localizar os líderes do Anonymous, tem a explicação. “Para derrubar os sites, sobrecarregam-se os servidores das empresas com milhares de acessos falsos. É o que basta para tirar as páginas do ar”, disse Wisniewski a VEJA. “Isso é eficiente contra portais pequenos, mas não prejudica os grandes, que têm estrutura para aguentar milhões de visitantes”. Páginas como a do FBI e as dos bancos brasileiros foram sobrecarregadas com 100000 visitantes extras. Completa Wisniewski: “Cerca de 1000 hackers participam das ações. Apenas se outras centenas de milhares se juntassem a eles seria possível estimular falhas no Facebook, que é preparado para receber mais de 800 milhões de acessos simultaneamente”.

Apesar de o Facebook ser imune aos ataques, Wisniewski avisa que ele é mais suscetível a invasões do que os bancos. Isso significa que um hacker consegue facilmente entrar no perfil de uma pessoa na rede social, mas é muito mais difícil achar brechas nos protocolos de segurança que protegem uma conta de banco. Nos ataques brasileiros, os sites de Itaú, Bradesco e companhia foram tirados do ar, mas as contas não foram comprometidas. Já no Facebook, esse tipo de invasão ocorre todos os dias. Em novembro, hackers tomaram o controle de perfis e postaram neles imagens pornográficas. Eles entraram nas páginas por meio de links falsos que, quando clicados, abriam uma porta virtual para a invasão. Para se proteger, as dicas são simples: não abra sites suspeitos, jamais clique em promoções que parecem boas demais e não compartilhe informações pessoais.




 

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